Quinta-Feira da Ceia do Senhor
2 de abril
A Igreja primitiva celebrava o dia de Páscoa, em toda a sua plenitude, apenas na Vigília Pascal até à manhã da Páscoa. Esta festa foi distribuída, gradualmente, em três dias ou tríduo, somente a partir do século IV. O tríduo começa com a Missa “in Coena Domini” e encontra seu ápice na Vigília Pascal: começa na quinta-feira à noite, porque, segundo os judeus, o dia começava já na noite anterior. Logo, as solenidades e os domingos começavam a ser celebrados, liturgicamente, com as Vésperas do dia anterior; além do mais, na Última Ceia de Jesus, é antecipada, sacramentalmente, a sua doação na Cruz.
Segundo a lei e o costume judaico, Jesus celebrou a festa judaica da Páscoa, com seus discípulos, em memorial da libertação do Povo de Israel da escravidão no Egito. Durante este banquete, Jesus instituiu a Eucaristia, sacramento da salvação, e o sacerdócio ministerial. Ele não se limitou apenas em pronunciar palavras, mas realizou um gesto, que revela o "sentido" mais profundo do que acabava de celebrar: o lava-pés, ou seja, serviço, amor. Este gesto era usado pelos escravos com seus senhores e convidados: lavar os pés da poeira do caminho. Jesus, por sua vez, quebra esta regra de superioridade e serviço. Eis a “chave” para compreender e viver a Última Ceia, em obediência às palavras do próprio Jesus: “Fazei isto em memória de mim”. Não se trata apenas de “repetir” os gestos e as palavras da Última Ceia, hoje nossa Eucaristia, mas “fazer isto” também como serviço e amor mútuo, começando pelos excluídos. Eis o verdadeiro sentido da Eucaristia.
Desta forma, a Quinta-feira Santa torna-se um livro aberto, uma escola de fé e sabedoria cristã.
EUCARISTIA E CARIDADE
Por Dom Odilo Pedro Scherer
Na Missa desta Quinta-Feira Santa, lemos o trecho do Evangelho de São João sobre a última ceia e o lava-pés. São João, diversamente dos outros evangelistas, apenas faz um aceno à instituição da Eucaristia e se prolonga muito mais no gesto do lava-pés, que já aparece no final da última ceia. Isso tem vários significados.
São João não valoriza menos a instituição da Eucaristia, mas a pressupõe e parte dela para narrar mais longamente o gesto do Lava-Pés. Apenas diz que Jesus “se levantou da mesa, depôs as vestes, pegou uma toalha...” (cf Jo 13,4). A instituição da “ceia da nova e eterna aliança” é o sinal sacramental do seu amor e de sua entrega total pelos discípulos e pela humanidade. “Tendo amado os seus, amou-os até o fim” (cf Jo 13,1). Esse amor o levou a entregar a sua vida sobre a cruz, até à última gota do seu sangue, em favor da humanidade. A Eucaristia, por ele instituída deverá ser lembrança eterna daquilo que Ele fez em favor de todas as pessoas: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).
O lava-pés é o gesto humilde do Mestre que se põe a serviço dos discípulos e de todos. O lava-pés está unido à Eucaristia de modo inseparável e significa que, quem participa da Eucaristia, deve estar pronto para colocar-se a serviço do próximo. É interessante notar a semelhança da ordem que Jesus dá aos discípulos ao instituir a Eucaristia e ao lavar os pés dos discípulos: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19); “Eu vos dei o exemplo, para que façais a mesma coisa” (Jo 13,14).
É por isso que a Igreja ensina e recomenda que a Eucaristia e a prática da caridade, nas suas mais diversas expressões, sejam inseparáveis. Quem participa da mesa do Senhor, também esteja pronto para servir à mesa dos pobres, enfermos e de todos os necessitados. Por isso, faz todo sentido que, ao celebrar a Missa nas nossas comunidades, haja sempre também os gestos que recordem os irmãos mais necessitados das próprias comunidades, mas também da Igreja e do mundo inteiro.
Hoje, nós agradecemos mais uma vez a Jesus por ter deixado à Igreja um presente tão grande e importante. Em cada celebração da Eucaristia, torna-se presente o mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus e a efusão do Espírito Santo em favor de todos nós. Celebramos a Eucaristia, não recordando simplesmente algo que aconteceu há muito tempo, mas como algo que é sempre atual; e podemos unir-nos a esse “Mistério da fé” mediante a fé e nossa participação ativa, recebendo igualmente os seus frutos.
Mais uma vez, desejo recomendar a todos os batizados a participação frequente da Missa, sobretudo aos domingos. Além de ser um dever, é sobretudo um grande privilégio e ocasião de grandes bênçãos e crescimento na vida cristã.
