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Beato Mariano de la Mata

Beato Mariano de la Mata - Arquidiocese de São Paulo

5 de novembro

Pães que sumiam da despensa do convento, co­bertores que nunca paravam na paróquia e um ‘Fus­quinha’ que percorria a cidade, parecendo ser movi­do mais pela fé do que pelo combustível. Longe de serem mistérios, esses eram alguns dos rastros de uma vida inteiramente dedicada ao próximo, a do Beato Mariano de la Mata Aparício.

“Ele pegava pães no convento, sem ninguém sa­ber, e distribuía para as pessoas na rua. Arrumava cobertores e saía para entregar. Sempre tinha no bolso algumas balas para dar às crianças. Quando chegava, sempre sorrindo, mudava o ambiente. No dia do velório dele, minha mãe me ligou, muito sen­tida, e disse: ‘Ele tinha um odor de santidade’”, re­corda Maria Inês Magalhães Collet Silva, atual pre­sidente da Associação e Oficinas de Caridade Santa Rita de Cássia, cuja família acompanhou de perto a trajetória do religioso, beatificado há 20 anos, em 5 de novembro de 2006.

Sacerdócio vivido intensamente no Brasil

Nascido em 31 de dezembro de 1905, em Palên­cia, na Espanha, Mariano de la Mata Aparício cres­ceu em uma família de oito filhos, profundamente marcada pela fé. Ingressou na Ordem de Santo Agos­tinho aos 16 anos e foi ordenado sacerdote em 1930, sendo enviado em missão ao Brasil em 21 de agos­to de 1931, onde permaneceu até sua morte, em 5 de abril de 1983. Foram quase 52 anos no País, 38 dos quais na Arquidiocese de São Paulo. Ele também passou por Taquaritinga e Engenheiro Schmitt, no interior paulista.

Na capital, além de ser educador no Colégio Santo Agostinho, uma de suas principais frentes de trabalho foi a direção espiritual da Associação e Ofi­cinas de Caridade Santa Rita de Cássia, conhecidas carinhosamente como “Ritinhas”. A Associação, que completou seu centenário este ano, reúne mulheres dedicadas à confecção de roupas e enxovais para fa­mílias em situação de vulnerabilidade. Como diretor espiritual, ele visitava os núcleos, acompanhava as associadas, incentivava a união entre a vida de oração e o serviço ao próximo.

“Padre Mariano enchia o ‘Fusquinha’ de enxovais e ia ele mesmo às periferias da cidade entregar os kits para as famílias mais necessitadas. Para ele, não ha­via ‘tempo feio’: andava na lama e, às vezes, até descia para empurrar o carro quando atolava. Foi sempre muito presente nas oficinas”, conta Maria Luísa Bloi­se, que estudou na escola onde o religioso foi Cape­lão. A mãe dela também integrou as “Ritinhas”.

Hábito da Caridade

Padre Mariano visitava os enfermos, levava os sacramentos, confortava idosos, acolhia pessoas em situação de rua e encontrava tempo para as crianças. “Às vezes, ele deixava a comida no prato para atender imediatamente algum enfermo. Isso chegava a causar certo desconforto na Ordem, porque ele perdia mo­mentos comunitários para socorrer os necessitados, mas nunca foi displicente com a vida comunitária. O zelo pelos que mais sofriam é que movia sua vida sacerdotal”, explica Frei João Marcos Pontes Borba Filho, OSA, que já escreveu artigos sobre o Beato.

Para o Frade, o testemunho do Beato Mariano estava justamente na capacidade de transformar a rotina em oportunidade de amar. “Ele não era um homem de feitos extraordinários. O extraordinário dele era viver com heroísmo o dia a dia. Mesmo idoso, tinha uma disposição constante. A atenção aos enfermos e as visitas frequentes às oficinas, sem demonstrações de desânimo ou mau humor, revelavam uma santidade vivida nas circunstâncias mais comuns da vida”.

Duas décadas de beatificação

Essa maneira de viver foi reconhecida oficialmente pela Igreja em 5 de novembro de 2006. Na ocasião, cerca de 3 mil fiéis lotaram a Catedral da Sé para a missa de beatificação, presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, então Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, representante do Papa Bento XVI na ocasião. Entre os concelebrantes esti­veram o então Prior-geral da Ordem de Santo Agos­tinho, Padre Robert Prevost, atual Papa Leão XIV; e o Cardeal Cláudio Hummes, à época Administrador Apostólico da Arquidiocese de São Paulo.

Na homilia, o Cardeal Saraiva Martins destacou que “foi seguindo o programa das bem-aventuran­ças, vivendo, em profundidade, o seu espírito, que o Padre Mariano de la Mata Aparício atingiu a mais alta meta de santidade”.

“Padre Mariano foi pobre com os pobres, humil­de com os humildes e atento aos enfermos e anciãos, solícito com os alunos, os paroquianos e com os as­sociados das Oficinas de Santa Rita, misericordioso com os penitentes, puro de coração, pacífico na co­munidade dos religiosos agostinianos e na respectiva família, superando as dificuldades com a oração e o sacrifício”, disse ainda o Cardeal Saraiva Martins.

Um milagre em família

Para a família de Maria Inês, a santidade do Pa­dre Mariano não é um título pelo qual se espera, mas uma certeza baseada não apenas na convivência com o Padre, mas na história que viveram. Em 1965, José, pai de Maria Inês, foi diagnosticado com câncer de intestino e precisou passar por uma cirurgia com­plexa, e o próprio médico demonstrou pouca espe­rança de que o paciente sobrevivesse.

Diante da gravidade do quadro, a mãe de Maria Inês procurou o Padre Mariano. O Sacerdote olhou para José com carinho e lhe disse: “José, você vai se curar e acabar de criar seus cinco filhos”. E foi o que aconteceu: viveu para ver todos os filhos se casarem e conhecer os netos. Morreu perto dos 80 anos, em decorrência do mesmo câncer que havia regredi­do após a cirurgia. “Para a nossa família, esse foi o maior milagre que sua intercessão realizou”, conta Maria Inês.

Expectativa para a canonização

A devoção ao Beato Mariano continua a mobili­zar fiéis que esperam vê-lo reconhecido como santo pela Igreja. Para tal, é necessária a comprovação de um novo milagre atribuído à sua intercessão, ocorri­do após a beatificação. A verificação é feita de modo criterioso pela Santa Sé.

Atualmente, já existe um caso em análise no Vati­cano: Cláudio, morador de Palmital, no interior pau­lista, sofreu um grave traumatismo craniano após cair de uma carroça. Ele teve perda de massa ence­fálica. Durante sua internação, enquanto familiares e amigos rezavam por sua recuperação, conheceram a história do Beato Mariano e passaram a pedir sua intercessão. Cláudio se recuperou sem sequelas, algo inexplicável sob a perspectiva da Medicina.