Dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, coincidiu neste ano com o primeiro turno das eleições no Brasil. No dia anterior, recordavam-se os 800 anos de sua morte, que os franciscanos celebram como “trânsito de São Francisco”. A visita à cidadezinha do santo e aos lugares marcados pela vida de São Francisco, no centro da Itália, oferece a ocasião para um mergulho no passado medieval e no contexto histórico, social e religioso em que São Francisco viveu.
Ali, porém, não se respira apenas a nostalgia do passado. Mesmo oito séculos após a sua morte, São Francisco tem muito a dizer ao nosso tempo. O que leva ainda hoje tantas pessoas católicas e não católicas, crentes e descrentes a olharem para São Francisco com simpatia e emoção, buscando inspiração em sua vida e em seus ensinamentos? Talvez nos venha logo à mente que ele é o padroeiro da ecologia, o protetor dos animais, o poeta do irmão sol e da irmã lua… Isso tudo é verdadeiro, mas trata-se apenas de frutos de uma planta com raízes muito mais profundas.
Francisco foi um jovem como tantos outros da sua época, no início do século 13. Idealista e de família rica, tinha sonhos de grandeza: queria ser um herói nas Cruzadas, vestindo uma couraça, lança em punho sobre um cavalo, para libertar a Terra Santa do domínio dos muçulmanos. Seu pai queria que se preparasse para tocar a empresa familiar, mas Francisco, tomado por uma forte crise interior, punha em dúvida se tudo isso, de fato, seria capaz de encher de sentido sua vida: a riqueza da família, as glórias militares e as vaidades do tempo saciariam seu coração sedento de algo mais?
Foi então que resolveu desapegar-se dos bens deste mundo, inclusive da herança paterna; pobre com os pobres, próximo dos enfermos, de quem sentia asco, até que teve a coragem de abraçar e beijar um leproso. Francisco voltou seu coração inteiramente para Deus, seu único e verdadeiro bem, e colocou nele toda a sua confiança. Passou a viver da providência de Deus, como mendicante, sem contar com as seguranças que a vida social podia oferecer; os ensinamentos de Jesus passaram a ser a inspiração para a sua vida cotidiana. Alguns pensaram que Francisco tinha enlouquecido, mas ele sentia-se livre, leve e feliz como nunca antes, rico de todos os bens de Deus, que podia apreciar com simplicidade e sem apego.
Sentindo-se profundamente feliz, como filho do Pai do céu, Francisco passou a olhar todas as pessoas como irmãos e irmãs e queria que também o grupo formado em torno dele vivesse a mesma experiência de vida fraterna. E tratava com o mesmo amor o irmão leproso, o irmão ladrão, prisioneiro, estrangeiro… Irmãos e irmãs eram também as demais criaturas de Deus: irmão sol, irmã lua, água, fogo, vento, mãe terra, irmã morte corporal. Humilde e desapegado, sereno e reconciliado consigo mesmo, com os demais humanos e com todas as criaturas, Francisco tornou-se um homem de paz, respeitoso e acolhedor em relação a todos. As bem-aventuranças do Evangelho tornaram-se a sua constante inspiração.
Antes de sua conversão, Francisco sonhara em conquistar a Terra Santa à espada; agora, ei-lo como humilde peregrino, sereno e desarmado, indo ao encontro do sultão do Egito, cujas tropas os cruzados combatiam. E assim conquistou a acolhida e a admiração dos que antes considerava inimigos e seus frades puderam estabelecer-se nos lugares santos cristãos, para a acolhida dos peregrinos, como fazem ainda hoje. Francisco viu que a Igreja precisava de reformas para voltar ao genuíno espírito do Evangelho de Cristo e à sua missão. Mas não o fez com discursos inflamados ou críticas mordazes contra os males do tempo. Começou as reformas a partir de si mesmo e do seu grupo, indo contra a corrente dos ideais e as vaidades do seu tempo e vivendo como um verdadeiro homo evangelicus – homem do Evangelho.
A ele juntaram-se numerosos outros, formando comunidades fraternas e cultivando novas relações sociais. O movimento franciscano espalhou-se rapidamente pela Itália e por toda a Europa, envolvendo gente comum e pessoas ilustres, chegando às cortes dos reis e senhores feudais ainda durante a sua breve vida. Sua fama e o êxito do seu movimento não o envaideceram nem o centraram no seu ego. Conservou-se humilde e despojado até o final de sua vida. Francisco encontrou dois papas de seu tempo, que o abençoaram e reconheceram a genuinidade do seu modo de viver.
Passados oito séculos, as lições de São Francisco permanecem atuais e seguem atraindo a atenção de muitos que desejam algo mais da vida do que os momentos fugazes de glória que as vaidades da riqueza e do poder podem proporcionar. Sua vida centrada em Deus não o afastou dos problemas do seu tempo nem da beleza das criaturas, mas lhe permitiu amar a todos e a tudo, sem possuir e sem violência. O desapego o tornou livre e fraterno; pobre de bens, ele sentiu-se imensamente rico para partilhar com os outros o amor do “altíssimo, santíssimo e bom Senhor”, único, verdadeiro e supremo bem.
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo
Publicado originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 10 de outubro de 2026
