O ano eleitoral deveria prestar-se para refletir sobre a sociedade e o País que quereremos no presente e no futuro. Antes de pensar em candidatos a eleger, seria bom falar sobre o que esperamos deles e com qual projeto político e de sociedade eles deveriam se comprometer. Infelizmente, não é o que vemos, quando faltam menos de três meses para as eleições.
Nesta circunstância, é oportuno voltar a falar do bem comum, que é a razão de ser da política e do governo. Numa definição clássica do papa João XXIII, na encíclica Pacem in terris (1963), o bem comum “é o conjunto das condições da vida social que permitem aos grupos e a cada membro da sociedade atingirem mais completa e diligentemente a própria perfeição” (n.º 51). Ao contrário do bem privado, o bem comum refere-se àquilo que interessa à vida de todos e requer a atenção e o envolvimento de todos, sobretudo das autoridades constituídas.
Três elementos são essenciais na promoção do bem comum. Antes de tudo, a pessoa humana, sua dignidade e seus direitos inalienáveis. Em seguida, vêm o bem-estar social e o desenvolvimento integral das pessoas e dos grupos aos quais pertencem. Cabe à autoridade, enquanto investida de legítimos poderes e como árbitro entre as diversas partes, tornar acessível a cada um o que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana. Em terceiro lugar, o bem comum envolve uma ordem justa e estável, que assegure serenidade e paz no convívio social.
Cabe sobretudo ao Estado e suas instituições, por meio de quem os representa, a defesa e a promoção do bem comum. E hoje, em vista da interdependência cada vez maior dos países e povos, requer-se um olhar mais amplo, de maneira que o bem comum seja assegurado à inteira família humana. Já não é mais possível que os governantes pensem apenas no bem do próprio país, como expressou bem o papa Francisco na encíclica Fratelli tutti: Sobre a fraternidade e a amizade social (2020).
O bem comum fica prejudicado quando os governantes estão mais comprometidos com interesses privados, ou de grupos de pressão, do que com o verdadeiro bem do povo e da nação. De fato, quem precisa mais da ação dos governantes são os cidadãos mais vulneráveis, que não têm poder de pressão e influência política. Quem governa, nas três instâncias de exercício do poder, deve ter como meta a promoção do bem comum por meio de leis equitativas e execuções prudentes e justas.
O progresso desarmônico não favorece o bem comum. Em seu discurso à Assembleia-Geral, na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o papa Paulo VI já alertou: “Os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem” (16/11/1970). Essa reflexão impõe-se de novo diante da revolução tecnológica atual. Se esse progresso for absorvido sem um discernimento ético e social adequado, ele poderá passar por cima da dignidade das pessoas, valorizando mais quem é mais competitivo e tem mais desempenho e poder.
Leão XIV, em sua recente encíclica Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial (2026), refere-se a diversos aspectos do bem comum, ameaçados na cultura atual marcada sempre mais pelo paradigma tecnocrático e pela inteligência artificial. Antes de mais, a devida valorização e a preservação do humano e da dignidade inalienável de cada pessoa diante do poder crescente atribuído à máquina. Além disso, a promoção dos princípios da subsidiariedade e da solidariedade, a destinação universal dos bens da criação e a justiça social. Enfim, preocupa a tutela da dignidade do trabalho e a salvaguarda da liberdade contra novas formas de dependência e mercantilização (conferir n.º 131).
Um dos problemas contemporâneos, que pervade a convivência social e também o ambiente político, é o das fake news e das narrativas construídas que, de tanto repetidas, ficam parecendo verdadeiras. A verdade é um bem comum essencial, que deve guiar a vida pessoal e social e também a política. O que se edifica sobre bases inconsistentes e pressupostos falsos não tem futuro. A afirmação da verdade é uma das características fundamentais da democracia e não deve ser confiada aos algoritmos nem à polarização radical e excludente, mas à livre manifestação das ideias e ao esforço conjunto na busca aberta e perseverante, em oposição às narrativas falsas.
Por fim, também a família é um bem comum e deve merecer as devidas atenções dos mandatários públicos. Embora desprotegida, fragilizada e, muitas vezes, impossibilitada de assumir as suas responsabilidades, ela segue sendo a base da sociedade; e quando os governantes a desprotegem, devem preparar-se para enfrentar maiores problemas sociais.
Quem quer que sejam os eleitos, eles deverão cuidar do bem comum do País e dos Estados. Por isso, os candidatos devem mostrar aos eleitores a contribuição que pretendem oferecer ao bem comum.
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 11 de julho de 2026
