Liturgia

Clero

Paróquias

Contato

Tutela de Menores

Arquidiocese de São Paulo
Arquidiocese de São Paulo

"Deus habita esta Cidade. Somos suas testemunhas"

Paz desarmada e desarmante

Na sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, comemorado pela Igreja Católica em 1º de janeiro, o papa Leão XIV retomou sua primeira saudação à multidão reunida na Praça de São Pedro, após a sua eleição ao Pontificado. “A paz esteja convosco”. Com essas mesmas palavras, Jesus dirigiu-se aos apóstolos, ainda assustados, mas felizes por vê-lo novamente após a sua ressurreição (conferir Jo 20, 19-20). Leão XIV quis dirigir palavras de alento ao povo, ainda enlutado pelo falecimento de papa Francisco, mas feliz com a eleição do novo sucessor de Pedro.

Mas não era só isso. Leão XIV indicava, desde logo, para uma de suas preocupações: a paz no mundo, o fim das guerras e dos motivos que as desencadeiam, a convivência fraterna e respeitosa entre todos os povos, apesar de todas as grandes diferenças que possam existir entre eles. Paz também na Igreja, sem antagonismos acusatórios e divisionistas, para que os discípulos de Cristo dediquem suas energias àquilo que mais importa: o testemunho do Evangelho da vida, da compaixão e da paz para todos.

Na sua mensagem, Leão XIV insiste que é preciso acreditar na paz, abrir-se a ela e trazê-la dentro de si. “É necessário ver a luz e acreditar nela”. Não dá para fazer discursos de paz, movidos por ódio, agressividade e desejo de vingança. Uma das dificuldades para a busca sincera da paz em nosso tempo é não acreditar que ela seja possível; enquanto se fazem discursos infinitos sobre a paz, ressoam as armas. O papa lembra Santo Agostinho, que recomendava aos cristãos uma amizade indissolúvel com a paz: “Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa”.

É assustador pensar no volume de investimentos de muitos países no rearmamento e no poderio bélico nos últimos dois anos! A guerra entre Rússia e Ucrânia e o despontar da China e de outros países como grandes potências armadas desencadearam uma corrida às armas para atender a uma necessidade potencial de defesa, inibir algum intento ameaçador ou para se prevenir “contra a periculosidade alheia”. Em outras palavras, voltou a vigorar a lógica que os antigos romanos já adotavam: “si vis pacem, para bellum” (“se queres a paz, prepara a guerra”). Para muitos, reflete o papa, a paz aparece como “um ideal distante” e pouco realista. Nas relações sociais, deseja-se a paz, mas espalha-se agressividade e desconfiança em relação aos outros. Nas relações entre cidadãos e governantes “chega-se a considerar culpa o fato de um país não estar suficientemente preparado para a guerra”. No convívio social, isso leva ao clamor pela venda de armas aos cidadãos. No plano político internacional, a corrida por armas sempre mais sofisticadas e numerosas leva os povos a viverem em estado permanente de terror, sob a ameaça de alguma tempestade incontrolável que pode desabar a qualquer momento. A tecnologia da inteligência artificial permite produzir armas sempre mais sofisticadas e efetivas em sua ação.

O papa lamenta que, atualmente, esteja sendo difundida sutilmente no mundo certa cultura da ameaça e do medo, passando a percepção de que é preciso armar-se para defender-se e que só uma segurança armada pode assegurar a paz. No entanto, é preciso continuar a acreditar na paz, mesmo lá onde ela está ameaçada ou foi seriamente ferida. O papa Francisco já recomendava que era preciso construir pontes, em vez de levantar muros ou cavar trincheiras, não insistindo nas ameaças e preferindo a porta aberta, a mesa do diálogo, a escuta sincera das razões do outro, a paciência da diplomacia.

Ao lado disso, recomenda Leão XIV: “É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses econômicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados” a promover a guerra. Mas só isso não basta: “É necessário continuar a despertar as consciências e o pensamento crítico diante de tais interesses. Os conflitos atuais, como os de todos os tempos, têm na sua base os mesmos motivos: interesses econômicos, prepotência, vaidade, vontade de poder e reação a injustiças sofridas. Esse conjunto de motivos beligerantes, para serem superados ou refreados, requerem uma forte tomada de consciência e mudança cultural. Isso será possível ou devem todos resignar-se e aceitar que a força bruta é o que manda no mundo?”

Uma paz desarmada e desarmante é um objetivo possível “não só porque isso se impõe pelos princípios da reta razão, mas porque é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados”, já escreveu São João XXIII na Encíclica Pacem in Terris: (n.º 113, 1963). Leão XIV observa que as religiões, em primeiro lugar, devem prestar esse serviço à humanidade, sendo “casas de paz” e vigiando sobre a crescente tentação e risco de “arrastar as palavras da fé para o embate político, para abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a luta armada”. E chama isso de “blasfêmia que obscurece o Santo Nome de Deus”.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo Metropolitano de São Paulo

Publicado originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 10 de janeiro de 2026