O conceito de “civilização do amor” entrou na linguagem da Doutrina Social da Igreja a partir do papa Paulo VI, que o empregou numa alocução dominical ao povo, no dia 17 de maio de 1970. Era o tempo da guerra fria, com as tensões entre o bloco socialista-comunista e o bloco liberal-capitalista. Em seguida, o conceito apareceu em praticamente todos os textos do magistério social dos papas, até nossos dias.
João Paulo II usou com frequência a expressão nas encíclicas sociais Centesimus annus (1991) e Sollicitudo rei socialis (1988) para designar o conjunto de valores e princípios basilares da proposta cristã para a organização social e política digna da pessoa humana. Entre esses princípios, está a solidariedade, que é uma síntese de outros princípios e valores. O princípio da solidariedade, mesmo não sendo necessariamente teológico e religioso, está em perfeita sintonia com o respeito, a justiça e o amor ao próximo, que são exigências éticas para os cristãos.
Os princípios motivadores das ações humanas podem ser diversos, como a sede de poder, o acúmulo de bens, o gozo da vida, a projeção social e o desejo de ser feliz. Mas o comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor e está orientado para o amor. E isso não vale apenas para a vida pessoal, mas também para o convívio social. Não a violência, o ódio, a prepotência, o egoísmo extremado, a indiferença, mas o amor é a única força capaz de levar à perfeição pessoal e social e de orientar a história para seu verdadeiro bem.
Esse amor, que não se confunde com certo sentimentalismo vago e fugaz, refere-se a atitudes concretas de zelo e dedicação ao bem comum, de atenção e interesse pelas pessoas, especialmente as comunidades e povos expostos à vulnerabilidade social. Esse amor, que se estende a todo ser humano, sem distinção, foi qualificado por São Tomás de Aquino como caridade social e também caridade política. O papa Francisco, na encíclica Fratelli tutti (2020), de modo semelhante, chamou esse amor de amizade social, como também já aparece na encíclica Rerum novarum (1891), de Leão XIII. A caridade social, ou política, contrapõe-se ao amor egocêntrico e ao individualismo exacerbado, que buscam em tudo apenas a própria satisfação.
A busca da melhoria social e a edificação da sociedade no bem são pressupostos que legitimam a ação social e política. O contrário disso não seria aceitável. Também é certo que a edificação da sociedade digna da pessoa pode passar por várias propostas, constantemente em debate e tensão na vida cultural, política e social. No entanto, é preciso avaliar bem se as propostas de melhoria da vida política e econômica são verdadeiramente inspiradas no amor social, como norma suprema do agir. Só o amor social, quando se torna cultura e norma, pode gerar uma ordem social estável, transformando a simples coexistência armada em uma comunidade de destino (conferir Francisco, Fratelli tutti, 183).
O amor é a forma mais elevada e nobre de relação entre os seres humanos e, portanto, deve animar cada dimensão da vida, não apenas individual, mas também social e a relação entre os povos. A humanidade vai conhecer verdadeira paz somente quando reinar a civilização do amor. É nesse sentido que o ensino da Igreja Católica, sobretudo nas palavras dos seus papas, tem se empenhado constantemente em favor da justiça, da solidariedade e da paz entre as pessoas, as comunidades locais e os povos, apontando o desenvolvimento humano integral como caminho para realizar o bem comum e a paz.
O ódio desencadeia a violência, que gera mais violência e sofrimento. Só o amor pode mudar completamente o ser humano, ensinou João Paulo II na carta apostólica Novo millennio ineunte (2001). Esse papa propôs, como grande tarefa para a Igreja no terceiro milênio cristão, a colaboração com toda a humanidade para a construção da civilização do amor. E isso não é uma utopia ingênua, mas um projeto exigente, observou Leão XIV na recente encíclica Magnifica humanitas (2026, n.º 106).
O papa atual dedicou um capítulo inteiro da sua encíclica à edificação da civilização do amor, tendo como enfoque a revolução tecnológica da informática e da inteligência artificial (IA) que a humanidade vive atualmente. Como deve ser usada a IA para que essa maravilha tecnológica não venha em prejuízo da pessoa humana e de sua dignidade, mas contribua para a civilização do amor na era digital? Como evitar que o poder da tecnologia e a nova cultura tecnocrática se tornem prepotentes e opressoras? Como desarmar os corações e as mãos na era digital?
Tarefa nada simples, mas necessária, é transformar a interdependência sempre maior entre as pessoas e os povos em laços de acolhida e solidariedade. “Não basta que a IA nos torne mais eficientes ou conectados; ela deve servir para edificar a família humana universal, com direitos e deveres compartilhados, onde a proximidade digital se torna ocasião concreta de encontro e cuidado recíprocos” (Magnifica humanitas, 187).
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado originalmente no jornal O ESTADO DE S.PAULO em 8 de agosto de 2026
