Papa reafirma sacralidade do Matrimônio e diz que Igreja não deve apontar o dedo

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Com celebração eucarística na Basílica de São Pedro, em Roma, Papa Francisco inaugurou neste domingo, 4/10, a 14ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.
Publicado em: 04/10/2015 - 16:15
Créditos: Redação com rádio Vaticano

Com missa concelebrada pelos 270 padres sinodais, Papa Francisco inaugurou neste domingo a 13 Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que a partir desta segunda-feira iirá se debruçar sobre o tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.  

Em 2014, a Igreja já viveu a experiência de um Sínodo sobre a família. “A diferença está no tema: no ano passado, o tema era a situação e os desafios da família para a missão da Igreja. O tema deste ano é a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, explicou o Cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, que está em Roma para participar da assembleia sinodal. Além disso, “no ano passado, era uma assembleia extraordinária, com a participação, sobretudo, dos presidentes  da Conferências Episcopais; neste ano, a assembleia é ordinária, com a participação de membros das Conferências episcopais, escolhidos por elas, como delegados para a assembleia do Sínodo”.

Na homilia da missa de inauguração do Sínodo, o Papa comentou as leituras do dia, que, segundo ele, “parecem escolhidas de propósito” para o evento que a Igreja se prepara a viver e estão centradas em três argumentos: o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família.

Mudança de doutrina?

Antes de embarcar para Roma, Dom Odilo lembrou que “o Papa Francisco já disse que não estão em pauta mudanças doutrinais sobre o Matrimônio e a família. O Sínodo não tem competência para isso, mas seria missão de um Concílio”.

Solidão

Na primeira Leitura, Adão vivia no paraíso e sentia-se só. A solidão, disse o Papa, “é um drama que ainda hoje aflige muitos homens e mulheres”, e citou os idosos, os viúvos, homens e mulheres deixados pela sua esposa e pelo marido, migrantes e refugiados que escapam de guerras e perseguições; e tantos jovens vítimas da cultura do consumismo e do descarte.

Francisco denunciou o paradoxo do mundo globalizado, "onde há tantas habitações de luxo, mas o calor da casa e da família é cada vez menor; muitos projetos ambiciosos, mas pouco tempo para desfrutá-los; muitos meios sofisticados de diversão, mas um vazio cada vez mais profundo no coração; tantos prazeres, mas pouco amor; tanta liberdade, mas pouca autonomia... Aumenta cada vez mais o número das pessoas que se fecham na escravidão do prazer e do deus-dinheiro".

O Papa constatou ainda que há pouca seriedade em levar avante uma relação sólida e fecunda de amor. Cada vez mais o amor duradouro e fiel é objeto de zombaria e olhado como se fosse uma antiguidade. Parece que as sociedades mais avançadas sejam precisamente aquelas que têm o índice mais baixo de natalidade e o índice maior de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social.

O amor entre homem e mulher

Deus não criou o ser humano para viver na tristeza ou para estar sozinho, acrescentou, mas para a felicidade, para partilhar o seu caminho com outra pessoa; para amar e ser amado. É Ele que une os corações de duas pessoas que se amam e liga-os na unidade e na indissolubilidade. Isto significa que o objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre.

A família

Citando o Evangelho de São Marcos “O que Deus uniu não o separe o homem”, Francisco afirmou que se trata de uma exortação a superar toda a forma de individualismo. Para Deus, explicou o Papa, o matrimônio não é utopia da adolescência, mas um sonho sem o qual a sua criatura estará condenada à solidão.

Paradoxalmente, também o homem de hoje continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, fecundo, fiel e perpétuo. Corre atrás dos prazeres carnais, mas deseja a doação total.

Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade e na verdade. Isto é, defender a sacralidade da vida, a indissolubilidade do vínculo conjugal, sem mudar sua doutrina segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes.

Caridade

Outro elemento fundamental, todavia, é também a caridade.

“A Igreja deve viver a sua missão na caridade sem apontar o dedo para julgar os outros, mas se sente no dever de procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia; de ser ‘hospital de campanha’, com as portas abertas para acolher todo aquele que bate pedindo ajuda e apoio.”

A Igreja, exortou Francisco, deve procurar o homem e a mulher, para acolhê-los e acompanhá-los, porque uma Igreja com as portas fechadas trai a si mesma e à sua missão e, em vez de ser ponte, torna-se uma barreira.

“Com este espírito, peçamos ao Senhor que nos acompanhe no Sínodo e guie a sua Igreja pela intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José, seu castíssimo esposo.”.

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