Aprender a ser cristãos

25/04/2017 - 17:00

De 26 de abril a 5 de maio, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estará reunida em sua 55ª. assembleia geral, em Aparecida, junto do Santuário Nacional de Nossa Senhora. Mais de 300 bispos, de todas as dioceses do Brasil, se debruçarão sobre uma longa pauta, composta de vários informes e prestações de contas, reflexões sobre diversos temas da vida e da missão da Igreja e sobre questões da vida social, em relação às quais os bispos costumam se pronunciar. Não faltarão muitos momentos de celebração e oração em comum e também haverá um dia de retiro espiritual.

O tema principal da 55ª assembleia geral da CNBB será a iniciação à vida cristã, entendida como caminho para aprender a ser cristão. Em poucas palavras, trata-se da formação cristã de quem vai ser batizado e de quem já foi batizado. De fato, não se nasce cristão: além da graça recebida de Deus no Batismo, é necessário passar por um processo de formação e aprendizado, que envolve a experiência do encontro pessoal com Deus e da fé vivida em comunidade, o conhecimento da doutrina, o exercício das virtudes cristãs e a aquisição das atitudes coerentes com a fé e a vida cristã.

O assunto já vinha sendo trabalhado há alguns anos; desta vez, porém, ocupará uma quota privilegiada do tempo e das atenções dos bispos. Os motivos da escolha do tema são muitos. No passado, a fé católica era transmitida de forma mais ou menos espontânea pelo contexto familiar, social e cultural, uma vez que, para o brasileiro, era “normal” ser católico. Mesmo quem nunca tivesse feito uma experiência pessoal de fé, acompanhava os ritos e festas religiosas com maior ou menor profundidade. Havia uma identificação natural com a fé e as práticas católicas. De tempos em tempos, passavam os missionários e faziam um “reforço” na formação religiosa do povo e isso tinha um efeito bom, mesmo sobre os que viviam distantes da prática da fé.

Atualmente, o quadro religioso mudou muito. A população, em grande parte, vive nas cidades, nas quais as pessoas são confrontadas com propostas culturais e hábitos sociais pluralistas e onde a religião nem sempre tem muito espaço. Sobretudo na cidade grande, muitos perdem facilmente os vínculos com uma comunidade religiosa concreta; e aí já não respondem apenas a estímulos e apelos religiosos, mas a muitos outros, que disputam a atenção e oferecem vantagens supostas ou verdadeiras. Estamos diante de um pluralismo religioso muito grande, onde nem sempre as pessoas conseguem ter clareza sobre as propostas religiosas que lhes são feitas. Quem não possui fé esclarecida e firme, ou não se vincula a uma comunidade católica concreta, acaba se desorientando na própria identidade religiosa e fazendo outras escolhas.

Diante disso, torna-se muito necessário que as pessoas batizadas, mesmo adultas, façam uma renovada experiência de fé, aprendam a valorizar o dom recebido no Batismo e a praticar aquilo que é coerente com a própria fé. Isso começa no berço, ainda no seio familiar, através do aprendizado de práticas e atitudes singelas, que expressam nossa fé. As mães, ensinando as crianças a fazerem o sinal da cruz e rezarem as primeiras orações, estão iniciando seus filhos na fé e na vida cristã. O mesmo acontece quando levam as crianças à igreja nos domingos e lhes explicam o significado do templo e de tudo o que faz parte dele, das orações da Missa e dos diversos atos da comunidade que celebra. Fazem também a iniciação cristã de seus filhos as mães que dão o exemplo, rezando elas mesmas, com fé e devoção diante dos filhos, ou quando fazem gestos e ações de caridade e misericórdia.

A iniciação à vida cristã continua, depois, na catequese regular e sistemática, promovida pelas paróquias e comunidades, com subsídios adequados e catequistas bem formados, que são verdadeiros mestres e guias das crianças e adolescentes no processo de iniciação à vida cristã. A iniciação à vida cristã continua e se aprofunda no encontro dos jovens cristãos católicos com a Palavra de Deus, lida e explicada com a fé eclesial. Continua e se aprofunda na participação da vida litúrgica da Igreja, onde se faz a experiência dos “mistérios da fé” de maneira privilegiada. A iniciação à vida cristã seria deficitária, se não levasse à vinculação com a Igreja viva, como ela é, numa comunidade concreta; seria insuficiente, se não entrasse em relação com o rico patrimônio do testemunho de fé e vida cristã dos santos, verdadeiros mestres na iniciação à vida cristã.

 

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO, edição 3148 -De 26 de abril a 2 de maio de 2017