'Responder ao sofrimento com a delicadeza do amor '

Na primeira Audiência Geral de 2017, realizada na Sala Paulo VI do Vaticano, o Papa Francisco refletiu sobre o sentido do sofrimento humano
Publicado em: 04/01/2017 - 11:15
Créditos: Redação com Rádio Vaticano e ACI Digital

Na primeira Audiência Geral das quartas-feiras deste ano de 2017, realizada na Sala Paulo VI do Vaticano, o Papa Francisco refletiu sobre o sentido do sofrimento humano e como dele  pode surgir a esperança.

O Santo Padre assinalou que as palavras de consolo não servem de nada diante de uma pessoa que sofre, a não ser que se faça partícipe do sofrimento. “Para falar de esperança a quem está desesperado, é preciso compartilhar o seu desespero; para enxugar as lágrimas do rosto de quem sofre, é preciso unir o nosso pranto ao seu. Só assim podem as nossas palavras ser realmente capazes de dar um pouco de esperança”, indicou.

Em sua catequese, o Papa quis se centrar na figura de Raquel, “que nos fala da esperança vivida no choro”. Raquel era “esposa de Jacó e mãe de José e Benjamin, aquela que, como relata o livro do Gênesis, morre ao dar à luz o seu segundo filho”.

O Pontífice fez referência às palavras do profeta Jeremias: “Um clamor se ouve em Ramá, de lamento, de choro, de amargura. É Raquel que chora seus filhos e recusa ser consolada, porque eles já não existem”

“Nestes versos – explicou –, Jeremias apresenta esta senhora do seu povo, a grande matriarca da sua tribo, em uma realidade de dor e choro, mas junto com uma perspectiva de vida impensada. Raquel, que na narração do Gênesis morreu dando à luz e tinha assumido aquela morte para que o filho pudesse viver, agora, ao contrário, representada pelo profeta como viva em Ramá, onde se reuniam os deportados, chora pelos filhos que, em certo sentido, morreram indo para o exílio, filho que, como ela mesma diz, ‘já não existem’”.

Por esse motivo, Raquel não quer ser consolada. “Essa rejeição exprime a profundidade da sua dor e amargura de seu choro. Diante da tragédia da perda dos filhos, uma mãe não pode aceitar palavras ou gestos de consolação, que são sempre inadequados, jamais capazes de diminuir a dor de uma ferida que não pode e que não quer ser cicatrizada. Uma dor proporcional ao amor”.

O Papa lamentou que “são tantas, também hoje, as mães que choram, que não se resignam à perda de um filho, inconsoláveis diante de uma morte impossível de ser aceita. Raquel personifica a dor de todas as mães do mundo, de todos os tempos, e as lágrimas de cada ser humano que chora perdas irreparáveis”.

O Bispo de Roma assinalou que “esta rejeição de Raquel, que não quer ser consolada, nos ensina também quanta delicadeza devemos mostrar diante da dor dos outros”.

“Deus, com sua delicadeza e seu amor, responde ao pranto de Raquel com a palavras verdadeiras: ‘Descansa tua voz do gemido, poupa os olhos das lágrimas! Pois há uma paga por teus trabalhos: – oráculo do Senhor – eles voltarão da terra inimiga’”.

“Justamente pelo pranto da mãe, há ainda uma esperança para os filhos, que voltarão a viver”, ensinou o Papa.

“Esta mulher, que tinha aceitado morrer no momento do parto para que o filho pudesse viver, com seu pranto é agora princípio de vida nova para os filhos exilados. À dor e ao pranto amargo de Raquel, o Senhor responde com uma promessa que agora pode ser para ela motivo de verdadeira consolação: o povo poderá retornar do exílio e viver na fé, livre, a própria relação com Deus. As lágrimas geraram esperança”.

O Santo Padre explicou o sentido que este relato do Antigo Testamento tem no Novo: “Como sabemos, este texto de Jeremias é depois retomado pelo evangelista Mateus e aplicado ao massacre dos inocentes. Um texto que nos coloca diante da tragédia da morte de seres humanos indefesos, ao horror do poder que despreza e suprime a vida”.

“As crianças de Belém morreram por causa de Jesus. E Ele, Cordeiro inocente, morreria depois por todos nós. O Filho de Deus entrou na dor dos homens, compartilhou e acolheu a morte. Sua Palavra é, definitivamente, palavra de consolação, porque nasce do pranto”, ressaltou o Papa.

Ao final da Audiência, o Papa falou sobre o massacre no cárcere em Manaus, ocorrido no último domingo (1)

“Ontem chegaram do Brasil as notícias dramáticas do massacre ocorrido na prisão de Manaus, onde um violentíssimo recontro entre grupos rivais causou dezenas de mortos. Exprimo dor e preocupação pelo ocorrido. Convido a rezar pelos defuntos, pelos seus familiares, por todos os detidos daquela prisão e por quantos nela trabalham. E renovo o apelo a fim de que os institutos penitenciários sejam lugares de reeducação e reinserção social, e as condições de vida dos detidos sejam dignas de pessoas humanas.”