A Cruz...

29/03/2017 - 17:30

Existe uma corrente de pensamento e ação bastante organizada em nossa sociedade que se articula para “dissipar o valor da Cruz, esvaziá-la do seu significado, negando que o homem possa encontrar nela as raízes da sua nova vida” (São João Paulo II, Ut Unun Sint, 1). E nunca tanto como hoje o ser humano tem tido necessidade da força e da sabedoria de Deus, que procedem da Cruz gloriosa e bendita.

A Cruz está presente em nossa vida, está inscrita na nossa existência, como nos ensinou o Divino Mestre: “Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24-25). Querer excluí-la é como desejar ignorar a realidade humana. Deus nos criou para a vida, mas nossa caminhada é marcada pelo sofrimento e pela provação. Experimentamos a realidade da Cruz todos os dias: dificuldades na família, no estudo no trabalho, nos relacionamentos.

Será sinal de maturidade acolher a Cruz. A Cruz deve ser acolhida, em primeiro lugar, no coração, transformando a existência, para ser carregada por toda a vida. É um estilo responsável de vida: “Procedei de modo que todos reconheçam que trazeis não só interior, mas ainda exteriormente, a imagem de Cristo Crucificado, modelo de toda doçura e mansidão” (Giordano, L., 1013). O Apóstolo Paulo levou tão a sério este princípio que disse: “Estou pregado à Cruz de Cristo” (Gl 2,19).

Jesus não nos engana, Ele não nos deixa sozinhos na Cruz, Ele sabe transformar a provação em esperança. São Paulo experimentou o amor fiel de Jesus, que não o abandonou nas horas mais sombrias, e testemunhou: “A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina” (ICor 1,18).

A Cruz de Cristo dá sempre renovados frutos de salvação. São Leão Magno diz que a “Cruz é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força, na humilhação, a glória, na morte, a vida” (São Leão Magno, Liturgia das Horas, II, p. 322). O cristão que olha com confiança para a Cruz recebe do Senhor a coragem e o vigor para caminhar com fidelidade na estrada da vida.

Percorrendo o caminho quaresmal em direção à Paixão do Senhor e gloriosa Ressurreição, vamos nos colocar aos pés da Cruz de Jesus, como outrora a Virgem Maria, João, Maria Madalena e outras mulheres se colocaram, e contemplar o mistério do amor de Deus por nós. Contemplando o mistério, vamos proclamar com vigor “Cristo Crucificado - escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1, 23- 24) – e pedir a graça de assumir com novo vigor e nova esperança a nossa cruz de cada dia.

Dom Sergio de Deus Borges

Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Santana

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO - edição 3144 - 29 de março  a 4 de abril de 2017