Comportamento ou compromisso?

05/04/2017 - 17:30

Habitualmente, temos comportamentos que são socialmente aceitáveis, e outros que são indesejáveis. Por isso, há algumas coisas que fazemos publicamente e outras ocultamente. O nosso comportamento pode ter como preocupação, ainda, atender a determinadas expectativas, como, por exemplo, fazer algo para agradar ou ser aceito e reconhecido pelos outros. Além das convenções sociais, também as leis podem direcionar o nosso comportamento, criando códigos de ética ou daquilo que é “politicamente correto”. Assim, o conjunto dessas influências externas pode – e realmente o faz – direcionar e determinar o nosso comportamento.

Jesus não correspondeu às expectativas externas, daqueles que estavam à sua volta, porque Ele não se comportava para agradar, mas tinha um compromisso com o Reino. A passagem que narra a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45) é um bom exemplo disso. Porque ali, os discípulos não queriam voltar à Judeia; os fariseus e mestres da lei se recusavam a aceitar que Ele fosse o Filho de Deus; a multidão queria ver um milagre, e as irmãs de Lázaro se perguntavam por que Jesus demorou tanto e chegou tão tarde. Outros poderiam ainda perguntar por que ressuscitar apenas Lázaro? Será que Jesus fazia diferença entre as pessoas?

A ressurreição de Lázaro não foi um espetáculo nem teve por base um comportamento afetivo, de um amigo ajudando outro, mas fazia parte do anúncio do Reino. Deus enviou seu Filho para que os mortos encontrassem o caminho da vida. A partir de agora, é preciso fazer uma escolha: permanecer nas trevas ou sair do túmulo, abandonando o pecado, as obras da carne, e reconhecendo que Jesus é o Cristo de Deus.

O que move Jesus é o amor e a misericórdia que vem do Pai. Por isso, o seu agir não é só um comportamento agradável e “politicamente correto”, mas um comprometimento com o Reino. Os discípulos de Jesus não podem agir de maneira diferente. Embora tenham o seu valor, não são as leis, os códigos de éticas ou os acordos sociais que regem a vida dos cristãos, mas a fidelidade ao Reino.

Os discípulos de Jesus não agem corretamente só porque estão sujeitos à lei ou a alguma convenção social, e nem porque a ética do mundo condena determinados comportamentos. O que move os discípulos são os valores do Reino, e por isso, só o amor cristão é capaz de gerar um compromisso verdadeiro, que pode ser praticado em todo tempo e lugar, todo dia e toda hora. Assim, os cristãos respeitam as leis e praticam a justiça, porque antes amam a Deus e ao próximo.

 

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia;
e vigário episcopal para a pastoral da comunicação

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO - edição 3145 – 5 a 11 de abril de 2017