Leigos são sujeitos e não beneficiários da missão da Igreja

Arquidiocese de São Paulo realizou um simpósio sobre o Ano Nacional do Laicato, no qual aprofundou o Documento 105 da CNBB
Publicado em: 16/03/2018 - 11:30
Créditos: Redação

Luciney Martins/O SÃO PAULO

A vida e a missão dos cristãos leigos na Igreja e na sociedade foram a temática do Simpósio do Ano Nacional do Laicato, realizado pela Arquidiocese de São Paulo nos dias 10 e 11, no campus Santana da PUC-SP.   

O evento reuniu representantes das diferentes organizações dos leigos presentes na Igreja em São Paulo – pastorais, movimentos, associações, novas comunidades e demais organismos – para aprofundarem o estudo do Documento 105 da CNBB, com o título “Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade – Sal da terra e luz do mundo (Mt, 13-14)”. Aprovado em 2016, o Documento foi trabalhado nas assembleias da CNBB em 2014 e 2015. 

O Simpósio contou com três conferências que apresentaram cada um dos três capítulos do Documento. O Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, aprofundou o primeiro capítulo – “O cristão leigo, sujeito na Igreja e no mundo: esperanças e angústias”; Vinícius Rodrigues Simões, Coordenador Estadual da Renovação Carismática Católica (RCC) no Rio de Janeiro, falou sobre o segundo capítulo – “Sujeito eclesial: discípulos-missionários e cidadãos do mundo”; e Cláudio Zorzan, Professor da Faculdade de Teologia da PUC de Campinas (SP), tratou do terceiro capítulo – “Ação transformadora na Igreja e no mundo”.

Antes de falar propriamente do Documento 105, Dom Odilo apresentou uma contextualização sobre a vocação dos leigos na Igreja a partir do Concílio Vaticano II, especialmente da Constituição Dogmática Lumen Gentium . Ele recordou que os leigos sempre participaram da vida eclesial de muitas formas, não só a partir do Concílio, citando, por exemplo, a Ação Católica, organização laical que reunia os fiéis a partir dos seus diferentes âmbitos de atuação na sociedade. 

 

SUJEITOS ECLESIAIS

Segundo Dom Odilo, o Vaticano II retomou a presença e atuação do leigo na vida da Igreja a partir de um novo enfoque, ao reforçar o papel de todos os batizados na Igreja compreendida enquanto povo de Deus. “A vida e a missão da Igreja precisam ser assumidas por todos os batizados, superando uma ideia, que ainda não está superada, de que a Igreja não é uma organização do clero no qual os fiéis leigos são os beneficiários, os assistidos por essa Igreja. Usando outra linguagem, é como se a Igreja fosse uma espécie de mercado e o restante do povo fosse o freguês”, chamou a atenção.

Ainda sobre esse aspecto, o Arcebispo salientou que no corpo de Cristo, que é Igreja, existem diferentes carismas e responsabilidades, dentre os quais os dos ministros ordenados, que exercem a missão de Jesus Cristo, pastor e sacerdote, em favor de todo o povo de Deus. Nesse sentido, o Cardeal condenou uma compreensão equivocada da relação entre clero e leigos a partir de uma ideia de diferenças de classes, na qual a hierarquia é vista como uma “classe dominante” e o restante do povo seria a “classe dominada”. 

DESTAQUES DO DOCUMENTO 105

“Queremos recordar e insistir que o primeiro campo e âmbito da missão do cristão leigo é o mundo. A realidade temporal é o campo próprio da ação evangelizadora e transformadora que compete aos leigos.” (63)

“Os cristãos leigos são chamados a serem os olhos, os ouvidos, as mãos, a boca, o coração de Cristo na Igreja e no mundo.” (102)

“O cristão leigo é o verdadeiro sujeito eclesial mediante sua dignidade de batizado, vivendo fielmente sua condição de filho de Deus na fé, aberto ao diálogo, à colaboração e à corresponsabilidade com os pastores.” (119)

“Não é preciso ‘sair’ da Igreja para ‘ir’ ao mundo, como não é preciso ‘sair’ do mundo para ‘entrar’ e ‘viver’ na Igreja.” (166)

O Cardeal Scherer explicou que o objetivo do Documento 105 é reafirmar que o leigo é sujeito eclesial, não parte passiva da Igreja, nem objeto apenas da evangelização, mas membro vivo e participativo. 

Outra característica importante do texto é afirmar a índole secular da missão dos leigos, isto é, sua presença e atuação no meio do mundo, no trabalho, na família, na educação, na cultura, nas ciências, na política e na transformação da sociedade, sem deixar de lado a missão interna da Igreja. “Leigos são a base da Igreja, como fermento na massa e sal da terra, que dá o sabor próprio do Evangelho, do Reino de Deus em todas as instâncias e realidades do mundo”, disse. 

 

CONSCIENTIZAÇÃO

Membro da Comissão Arquidiocesana para o Ano Nacional do Laicato e uma das organizadoras do Simpósio, Elisabete dos Santos destacou ao O SÃO PAULO que o Documento 105 demonstra a preocupação da CNBB para que todos os católicos se conscientizem sobre o valor e a missão dos leigos. Citando o sacerdote italiano Virginio Rotondi, Elisabete salientou que o cristão leigo, muitas vezes, “fica em cima do muro, de braços cruzados para ver o mundo lá embaixo, quando, na verdade, deve estar no meio do mundo para transformá-lo”.