Já é hora de acordar

30/11/2016 - 09:45

O primeiro domingo do Advento nos faz mergulhar em cheio na espiritualidade desse tempo litúrgico, marcado pela espera e pela esperança. De maneira geral, relacionamos logo o Advento com a preparação para o Natal e isso não está errado: preparamo-nos para acolher no hoje de nossa vida e de nossa história o Filho de Deus Salvador, que já veio ao mundo no evento mais extraordinário que marcou a história da humanidade.

Celebramos e recordamos a fidelidade de Deus às suas promessas de salvação. Deus não abandonou a humanidade na solidão, mas veio ao seu encontro e se fez um de nós, assumindo a nossa pobre condição humana – a nossa “carne” – através da Virgem Maria. Sua entrada no tempo e na história é um fato sempre atual: do mesmo modo como aconteceu no seu nascimento histórico, também hoje e em cada época os homens acolhem ou rejeitam sua vinda.

Celebrando o Natal com fé, também nós temos a possibilidade de acolher com alegria e gratidão a sua encarnação e o seu nascimento entre nós. Por isso, a preparação do Natal, durante o Advento, se reveste de alegria e ação de graças para os cristãos; e também é marcada pelo desejo de compartilhar com os outros a alegria da nossa fé, para que a recordação do seu nascimento possa alegrar a muitos e abrir seus corações à fé.

Mas a celebração do Advento também possui outra dimensão importante, enquanto nos convida a considerar a espera de sua “vinda gloriosa”. A Igreja crê que Jesus Cristo, um dia, virá e se manifestará glorioso ao mundo “para julgar os vivos e os mortos”; e dará a cada um a recompensa ou o castigo merecidos, de acordo com sua conduta e suas obras durante a vida neste mundo. Professamos nossa fé “na vida eterna” e vivemos neste mundo animados pela grande esperança no cumprimento das promessas de salvação plena.

Isso vem expressado de maneira bonita na “Oração do Dia”, do primeiro domingo do Advento, em que nós pedimos a Deus: “Concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o reino celeste para que, acorrendo com nossas boas obras ao encontro de Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos”. A esperança cristã, baseada nas palavras de Jesus Cristo e na fidelidade de Deus, nos faz buscar o reino celeste e desejar a participação na comunidade dos redimidos, junto com Cristo glorioso. A cultura contemporânea está pouco voltada para essa grande esperança e, por isso, nós pedimos que Deus desperte em todos esse desejo do “reino celeste”.

Quando será? Onde se realizará esse reino celeste prometido? A vida eterna e os “bens prometidos, que ainda esperamos” são realidades sobrenaturais, que Deus realizará em favor do homem. Nós desejamos saber tudo e, se possível, também controlar tudo; nesse caso, porém, o homem precisa reconhecer o seu limite e que nem tudo está debaixo do seu poder. No Evangelho do primeiro domingo do Advento, Jesus adverte: Ninguém sabe o dia, nem a hora; estejam sempre preparados para o momento de Deus em sua vida e para acolher, a qualquer momento, a vinda do “Filho do Homem”, Jesus Cristo glorioso, nosso juiz e nossa recompensa (cf. Mt 24, 37-44).

Estar preparados significa nutrir “o ardente desejo das coisas celestes”, viver em sintonia com Deus e praticando o bem cada dia; quem o faz, nunca será pego de surpresa. Jesus recorda o que se passou no tempo de Noé: O povo vivia “distraído”, ocupado com suas tarefas e projetos cotidianos, sem se dar conta dos “sinais dos tempos”; sobreveio o dilúvio e quem não estava preparado pereceu, enquanto Noé entrou na arca e se salvou. Pode acontecer que, também hoje, vivamos como se nunca devêssemos deixar este mundo e prestar contas a Deus de nossa vida. O Advento nos exorta a não perdermos de vista o sentido e o grande rumo de nossa vida.

São Paulo, na Carta aos Romanos (13, 11-14), é muito direto na sua admoestação aos cristãos que, ao que parece, também viviam “distraídos” e, na rotina da cotidianidade, deixaram-se absorver inteiramente pelo momento presente e pelo gozo da vida: “já é hora de despertar... a noite vai adiantada e o dia se aproxima. Agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé”. Por isso, é preciso abandonar as “obras das trevas”, para revestir-se de Cristo Jesus. Ele é a grande luz, que resplandeceu nas trevas para iluminar a todos e para nos conduzir nos caminhos de Deus.

 

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo