Dom Mateus de Abreu Pereira

5º Bispo Diocesano (1796-1824)

 

BIOGRAFIA

Nascido em 08 de agosto de 1741, na cidade portuguesa de Funchal. Era filho do casal Antônio de Abreu e Francisca Gonçalves de Andrade.

 

PRESBITERADO

Ordenado sacerdote aos vinte anos, serviu as igrejas de São João de Almedina e Ventosa, ambas pertencentes a diocese de Coimbra. Era clérigo secular do hábito de São Pedro, licenciado em direito canônico, homem de espírito liberal, tendo estudado em Paris e Coimbra, onde provavelmente alargou suas ideias.

 

EPISCOPADO

Dom Mateus de Abreu Pereira teve sua nomeação decretada pelo regente português dom José I, para ser o quinto bispo da diocese de São Paulo no dia 02 de agosto de 1794. A nomeação do bispo, foi confirmada pela bula papal de Pio VI, em 01 de junho de 1795.

O bispo foi sagrado na igreja dos religiosos de são Francisco de Paula, em Lisboa, no dia 13 de setembro de 1795. Foi sagrante dom Luís de Brito Homem, bispo de Angola, sendo consagrantes, dom Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães (bispo de Macau) e dom José Joaquim da Cunha de Azevedo Coutinho (bispo de Olinda).

No dia de sua nomeação, dom Mateus endereçou carta a câmara paulista, apresentando-se como bispo nomeado pelo regente de Portugal e colocando-se a inteiro dispor do reinado e daquele órgão. Ainda em Portugal, começou a tratar do governo de seu bispado. Tomou algumas providências, como a nomeação de seu procurador, o arcipreste Paulo de Souza Rocha, para que este tomando posse em seu nome não deixasse a diocese vacante. A posse do arcipreste se deu em 19 de março de 1796, praticamente dois anos após a nomeação do prelado.

Em 02 de maio de 1797, dom Mateus desembarcou no porto da vila de Santos, permanecendo por ali por um curto período, quando aproveitou para descansar da longa viagem. Comunicou a câmara de São Paulo que já estava em terras brasileiras e pediu que fosse preparada a sua chegada.

Os primeiros meses de dom Mateus à frente da diocese de São Paulo foram muito movimentados e marcados pelo bom relacionamento entre os governos temporal e espiritual, o que há muito tempo não se via.

Uma das primeiras providências tomadas por dom Mateus foi dar posse ao seu cabido. Nessa primeira fase do bispado, o cabido da Sé foi empossado no dia 17 de novembro de 1797.

As dificuldades para formar o clero encontradas por dom Mateus eram inúmeras, inclusive pela falta de um seminário adequado, já que desde a expulsão dos jesuítas, o antigo colégio-seminário vinha servindo de residência oficial dos governadores. Não tendo prédio para o seminário, dom Mateus regulamentou os requisitos mínimos de formação para os ordenados: ordens menores, subdiaconato, diaconato, presbiterato. Com o fechamento do seminário, os estudos decaíram, mas o esforço de dom Mateus para dar continuidade à instrução do clero foi louvável. Aos 08 de março de 1798, o prelado publica uma carta pastoral tratando sobre a formação do clero, onde procura pormenorizar a forma como deveria ser feita a implantação dos estudos na diocese.

Em seu governo pastoral, dom Mateus voltou a enfrentar o velho problema que tiveram seus antecessores: as côngruas dos sacerdotes. O estado em que viviam os párocos era penoso; viviam muitas vezes da caridade de pessoas, também carentes, das regiões para as quais eram designados.

Até a chegada de dom Mateus, havia apenas a freguesia da Sé, quando foi por ele expedida provisão no dia 15 de setembro de 1796, para a criação de duas paróquias: Nossa Senhora do Ó e Nossa Senhora da Penha de França. No ano de 1809, o bispo, por meio de outra provisão, criou a paróquia de São Bom Jesus de Matosinho do Brás, no dia 21 de abril. A freguesia da Sé já não dava mais conta de atender toda a população, a ponto das pessoas falecerem, muitas vezes, sem receber os sacramentos.

Nos tempos de dom Mateus de Abreu Pereira, destacou-se a figura de Santo Antônio de Santana Galvão, o frei Galvão. Nascido em Guaratinguetá, fez seus estudos em São Paulo e ordenou-se no Rio de Janeiro. Destaca-se que quando frei Galvão foi transferido para o convento de São Francisco para desempenhar a função de guardião, dom Mateus intercedeu por meio de carta para que o religioso retornasse para o Mosteiro da Luz.

Mesmo com tantos problemas, dom Mateus chegou disposto a fazer um bom governo. Importante destacar que o prelado visitou praticamente todas as paróquias de sua diocese, o que significa nos dias de hoje o estado de São Paulo e parte do Paraná. Enfrentou longas jornadas montado no lombo de um animal. As paróquias que não foram visitadas pelo bispo, foram atingidas por visitadores nomeados por ele.

Dom Mateus, por quatro vezes exerceu o cargo de governador da Capitania de São Paulo, acumulando as funções de líder civil e religioso. A primeira vez, em 1808, juntamente com Miguel Antônio de Azevedo Veiga e Joaquim Manuel do Canto. A segunda, de 1813 a 1814, juntamente Nuno Eugênio Lócio  e Miguel José de Oliveira Pinto. A terceira, de  1816 a  1819, com os mesmos componentes da terceira junta. A quarta, de 1822 a 1823, juntamente com José Correia Pacheco e Silva e o Marechal Cândido Xavier de Almeida e Sousa. Dom Mateus que muito havia colaborado para a independência do Brasil, nesta última participação na junta governativa, defendeu a paz e o novo governo imperial, pelo que foi condecorado por Dom Pedro I com a Imperial Ordem do Cruzeiro.

Dom Mateus de Abreu Pereira esteve no crepúsculo da colonização portuguesa em terras brasileiras e entregou para seu sucessor uma diocese que produziu muitos frutos. Não presenciou o reconhecimento da Independência do Brasil por parte de Portugal, em 25 de agosto de 1825. Foi um personagem marcante desse contexto histórico na vida de São Paulo e do Brasil. À sua maneira, colaborou para que a emancipação acontecesse e soube manter o espírito de união na sua diocese.

Ao longo de seu episcopado, ordenou 111 sacerdotes. Presidiu missa pontifical e participou do juramento do projeto de constituição oferecido pelo reinado, no dia 07 de abril de 1824. Foi sua última aparição pública. Faleceu aos 82 anos, no dia 05 de maio de 1824. Primeiramente, foi sepultado na capela-mor da antiga Sé Catedral. Atualmente, seus restos mortais repousam na cripta da catedral da Sé, onde pode ser lido em sua lápide:

 
“BEATI.MORTVI.IN.DOMINO.MORIVNTVR
IN.ANIMARVM.SALVTEM
POST.ANOOS.PLVRIIMVS.AGNITVS
PRO.PATRIA.AVGENDA.FORTVNATE.
ETIAM.EGREGIO.OPERI.INSTITISSE.AGNITVS
DD.MATHEVS.DE.ABREV.PEREIRA.EPISCVS
PAVLOPOLITANAE.ECCLESIAE.RECTOR.EGREGIVS
TERTIO.NONAS.MAILAN.MDCCCXXIV.VITAM.DESERENS
PLACIDA.COMPOSITVS.PACE.HEIC.QVIESETE”1
 

1 Bem-aventurados os mortos que morreram no Senhor. Após muitos anos dedicados assiduamente à salvação das almas, assim como à nobre tarefa de promover com êxito a grandeza da Pátria, dom Mateus de Abreu Pereira, bispo, egrégio regente da Igreja paulistana, tendo deixado esta vida em aos 05 de maio de 1824. Aqui repousa em serena paz.

 

BRASÃO

 

Descrição: Escudo eclesiástico, partido: o 1º de goles com uma cruz de argente, florenciada e vazia – Armas dos Pereiras.; o 2º de goles com cinco asas de jalde postas em sautor – Armas dos Abreus. O escudo está assente em tarja branca. O conjunto pousado sobre uma cruz trevolada de ouro, com um coronel de conde, entre uma mitra de prata adornada de ouro, à dextra, e de um báculo do mesmo, a senestra, para onde se acha voltado. O todo encimado pelo chapéu eclesiástico com seus cordões em cada flanco, terminados por seis borlas cada um, tudo de verde.

Interpretação: O escudo oval obedece as regras heráldicas para os eclesiásticos. Os campos representam as armas familiares do bispo, nascido da nobreza lusitana. Os dois campos, pela sua cor goles (vermelho) simbolizam o fogo da caridade inflamada no coração do bispo, bem como valor e socorro aos necessitados. No 1º, o metal argente (prata) simboliza a inocência, a castidade, a pureza e a eloquência, virtudes essenciais num sacerdote. No 2º, o metal jalde (ouro) simboliza: nobreza, autoridade, premência, generosidade, ardor e descortínio.