Temos tempo para Deus?

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07/03/2018 - 10:45

Durante a Quaresma, soa forte o convite à penitência e à conversão. A Igreja nos exorta a fazer os exercícios quaresmais do jejum, da esmola e da oração, com a finalidade de ajudar-nos no processo de nossa conversão a Deus. 

Há alguns anos, acolhendo uma iniciativa proposta pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, o Papa Francisco está estimulando a Igreja em todo o mundo para dedicar “24 horas para o Senhor”. Neste ano, isso acontece entre 9 e 10 de março. Pede o Papa que, em todas as dioceses, fique aberta ao menos uma igreja durante 24 horas para acolher o povo para a oração, adoração ao Santíssimo Sacramento, confissão, escuta da Palavra de Deus e a celebração da Eucaristia. Mas, sobretudo, oração contínua e abundante ocasião para as confissões. 

Várias outras iniciativas também podem ser incluídas: visita aos doentes e aos prisioneiros, especial dedicação aos pobres e todo tipo de pessoas em situação de sofrimento e necessidade. Passar algum tempo com essas pessoas e ocupar-se com elas, com amor, também é dedicar nosso tempo e nossas energias ao Senhor.

O motivo dessa nova prática quaresmal, que está tendo boa aceitação em diversas partes do mundo, é voltar ao frescor da vida cristã, que coloca Deus e o Evangelho no centro da vida. Estamos muito ocupados com tantas coisas e já não encontramos tempo para rezar com calma, para acolher a Palavra de Deus com atenção e alegria... Nossa mente, nossas mãos, nossos olhos e nosso coração estão continuamente ocupados com tantas coisas; pode acontecer que deixemos de nos ocupar com o essencial e o indispensável. Já escreveu Santo Agostinho: “temo que o Senhor passe por mim e eu não O reconheça”. Hoje, com os olhos sempre voltados para a telinha, talvez nem ao menos O veríamos passando por nós...

Na verdade, não apenas um dia deveria ser para o Senhor, mas todo o nosso tempo. “Amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa mente, com todas as nossas energias” – esse é o primeiro e o mais importante de todos os mandamentos. E o segundo mandamento é semelhante a esse: amar o próximo como a nós mesmos. Viver bem a fé requer que nunca esqueçamos isso. Infelizmente, nossa vida agitada nos toma todo o tempo, todas as energias e atenções. Será que não temos a necessidade de alguma mudança nesse modo de viver? É uma boa pergunta a nos fazermos na Quaresma. 

O Papa, na sua mensagem para as “24 horas para o Senhor”, recorda a palavra de Jesus: “porque se multiplicará a iniquidade e se esfriará o amor em muitos corações” (cf. Mt 24,12). Jesus refere-se ao tempo das perseguições e do ódio, que se espalharão até entre os discípulos; tempo de traições, falsos profetas, apostasia e abandono da fé. A advertência é muito séria e não é fora de propósito. O esfriamento da fé e do amor é consequência inevitável. Desde as origens do Cristianismo, o diabo se introduziu também nas comunidades cristãs, dividindo os fiéis, desvirtuando a verdade do Evangelho com falsas pregações, arrastando a muitos para o erro. O espírito de divisão e ódio dentro da própria comunidade de fé não vem de Deus, mas do diabo, e provoca um mal enorme à Igreja e causa dano ao testemunho do Evangelho que cada cristão e a comunidade inteira da Igreja são chamados a dar. Essa advertência de Jesus parece feita para nossos dias! 

Felizmente, Jesus deixou aberto o caminho da esperança: nessa confusão toda, “quem perseverar até o fim será salvo” (Mt 12,13). Perseverar na fé verdadeira também significa não se deixar iludir por propostas de fé “mais fáceis”, que satisfaçam às nossas comodidades e não requeiram de nós nenhuma conversão... Perseverar na esperança é nunca perder de vista a fidelidade de Deus às suas promessas. A esperança nos ajuda a atravessar os momentos mais difíceis, sem cair na apostasia ou no desespero. Perseverar no amor a Deus e ao próximo requer a superação do amor próprio e narcisista, que nos faz amar acima de tudo nossos próprios projetos e expectativas, na pretensão de sermos nós mesmos a salvação. Amar a Deus é aceitar o seu amor, de modo incondicional. Amar o próximo é nunca deixar-se levar pela tentação do esfriamento e da insensibilidade diante do próximo. 

“Vigiai e orai para não cairdes em tentação”: foi isso que Jesus recomendou aos seus discípulos (Mt 26,41). As “24 horas para o Senhor” podem nos ajudar muito a centrar nossa vida no essencial e mais necessário. Seria uma grande conversão quaresmal!
 

Cardeal Odilo Pedro Sherer
Arcebispo Metropolitano de São Paulo
Publicado em O SÃO PAULO, na edição de 07/03/2018