São Joaquim e Sant’Ana: avós de Jesus

26/07/2017 - 09:30

No dia 26 de julho, a Igreja festeja São Joaquim e Sant’Ana, pais de Maria, avós de Jesus.  Não é sem motivo que, também nesse dia, é comemorado o dia dos avós.

Joaquim e Ana estão situados na passagem do Antigo para o Novo Testamento. São herdeiros das promessas de Deus ao povo de Israel e têm a felicidade de vê-las cumpridas, com seus próprios olhos. Podem ser aplicadas a eles as palavras de Jesus aos discípulos: “muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram. E ouvir o que ouvis, e não ouviram” (Mt 13,17). Eles representam o povo perseverante e fiel, que não duvidou das promessas de Deus e transmitiu, de geração em geração, essa esperança até vê-la realizada.

Joaquim e Ana não são citados no Novo Testamento; chegamos aos seus nomes através de uma tradição muito respeitada da Igreja primitiva. Ana é representada na arte como a mãe que ensina e educa, sentada numa cátedra ou cadeira, o livro na mão, tendo Maria menina junto dela a ouvir atentamente os ensinamentos da mãe. O livro na mão lembra a palavra de Deus e a tradição religiosa do povo de Israel; a outra mão aponta para o alto, indicando os caminhos que levam a Deus.

A devoção a Sant’Ana difundiu- se em todo o mundo cristão, sobretudo na Europa, e os portugueses também a trouxeram ao Brasil. Ana é a imagem da mãe educadora, da avó que ensina os netos; imagem também dos catequistas, que educam e iniciam as pessoas nas coisas de Deus.

Em tempos de nova evangelização e de revalorização do papel da família na iniciação à vida cristã e na transmissão da fé, é belo olhar para esse casal humilde e feliz, que a Igreja aprendeu a admirar e valorizar desde cedo. Foram eles que iniciaram a filha Maria nas coisas de Deus e na tradição de fé do seu povo. Maria aprendeu dos pais a crer e esperar em Deus, a rezar, a conhecer as Escrituras e as tradições religiosas do seu povo. Nas palavras da jovem Maria, nota-se uma grande familiaridade com a Escritura e uma profunda comunhão com Deus.

O Papa Francisco pede que a Igreja olhe com nova atenção para a família: ela é um grande bem para a pessoa, a comunidade e a própria Igreja. E não apenas a família perfeita e sem defeito: apesar de suas imperfeições e problemas, a família é sempre um grande bem. Quanto bem faz a família que assume bem seu papel em relação aos filhos! E quanta falta faz a ausência da família na vida das pessoas!

Através do sínodo arquidiocesano, que estamos preparando, queremos também avaliar como está a situação da família na cidade de São Paulo e a pastoral da família em nossa Arquidiocese. É certo que as condições sociais, econômicas e culturais mudaram muito a configuração da família e seu papel na sociedade. Mesmo assim, permanece verdadeiro que a ausência da família na vida de muitas pessoas, ou as dificuldades de muitas famílias para assumirem sua missão natural não deixam de ter consequências danosas para as pessoas e estão, certamente, na origem de muitos dos problemas que a sociedade enfrenta. A família não deve ser vista como um problema, mas como um recurso importante para a sociedade e para a própria Igreja.

São Joaquim e Sant’Ana lembram o papel dos avós na formação das novas gerações e também no equilíbrio da estrutura familiar. A geração mais idosa é, para os mais jovens, uma referência de sabedoria e serenidade diante das dificuldades da vida. A isso, soma-se que os avós, geralmente, têm maior disponibilidade de tempo e podem dedicar-se às novas gerações de maneira mais desimpedida. Quem já enfrentou muitas coisas na vida pode inspirar confiança nos mais jovens. E isso também vale para a dimensão reli- giosa da vida: os avós cheios de fé e perseverantes na fé e na prática da vida cristã. E isso faz muito bem às novas gerações!

Enfim, São Joaquim e Sant’Ana lembram os casais idosos, que já viveram muitos anos de união matrimonial e familiar e continuam fiéis e dedicados um ao outro. O testemunho de vida matrimonial, de perseverança e fidelidade generosa no casamento e na vida familiar de tantos casais idosos é uma riqueza nas famílias e na comunidade humana e eclesial. Os jovens namorados e noivos e também os casais jovens têm muita necessidade do testemunho deles!

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
Artigo publicado no jornal O SÃO PAULO em 26/07/2017