Que tal um sínodo arquidiocesano?

02/03/2016 - 14:30

Faz muito tempo que não se celebra um sínodo diocesano na arquidiocese de São Paulo; o último foi celebrado ainda no final do século XIX, com Dom Lino Deodato, 8º bispo diocesano (1873-1894). São Paulo ainda nem era sede metropolitana. Depois, não há notícias de outros sínodos diocesanos realizados em São Paulo.

Várias dioceses do Brasil realizaram seus sínodos nas décadas que se seguiram ao Concílio. No entanto, ao contrário do que acontece em outros países, aqui não temos um vasta tradição de sínodos diocesanos. O que se desenvolveu mais entre nós foram as assembleias diocesanas, celebradas com regularidade, como expressão de comunhão e participação; porém, uma assembleia diocesana é bem diversa de um sínodo diocesano.

O sínodo está previsto na vida das Igrejas particulares, ou dioceses; o Código de Direito Canônico trata de sua identidade e detalha sobre sua organização, participantes, competências e funcionamento (cf. cân 460 a 468). Sínodo é uma assembleia de sacerdotes, religiosos e leigos, destinada a auxiliar o bispo diocesano na promoção do bem de toda a comunidade diocesana. Evidentemente, também participam os bispos auxiliares, se os houver numa diocese.

O sínodo diocesano, sob a presidência do bispo diocesano, tem uma grande importância para a Igreja particular; é a expressão mais alta de participação e corresponsabilidade numa diocese e no governo pastoral do bispo. É também uma manifestação de comunhão eclesial de altíssimo significado na vida da diocese e pode ser ocasião para uma grande avaliação pastoral, para uma nova tomada de consciência sobre a realidade da diocese, para indicar mudanças necessárias e definir metas e prioridades pastorais.

Por qual motivo deveríamos pensar num sínodo arquidiocesano em São Paulo? Refletindo sobre a realidade de nossa arquidiocese, suas estruturas pastorais, como as regiões, vicariatos episcopais e setores pastorais, sobre a coordenação pastoral no seu conjunto e os diversos organismos de animação pastoral, sobre a pastoral vocacional e a formação e a vida do clero, sobre a estrutura administrativa, é o caso de perguntar: as coisas estão bem do jeito que estão? A vida da Igreja, nesta arquidiocese, está bem cuidada e produz o fruto esperado? A missão da Igreja é bem cumprida nesta Arquidiocese? Estamos bem focados nas grandes questões da vida e da missão da Igreja? Onde estão se manifestando eventuais deficiências ou lacunas? Poderia ser diversa a organização e atuação pastoral da Arquidiocese para melhor corresponder à sua missão nas condições próprias em que ela se encontra na Metrópole?

Faço essas perguntas a mim mesmo e convido o clero e toda a Arquidiocese a também se interrogarem. Pode ser que estejamos indo em frente, repetindo os mesmos passos todos os anos, talvez apostando em mecanismos e estruturas que já não estão se revelando eficazes na ação pastoral, quase por inércia, levados por um invisível piloto automático... Não teria chegado o momento de uma grande avaliação e, quem sabe, para novas opções, organizações e práticas na evangelização e na animação pastoral?

A Conferência de Aparecida e, em seguida, o Papa Francisco, apontam para a necessidade de uma profunda conversão pastoral na Igreja, para responder melhor aos desafios atuais da missão. Essa conversão pastoral só seria possível se houvesse um amplo e profundo exame de consciência pastoral e se essa conversão fosse acolhida e promovida “em comunhão e participação”, pelo maior número possível de membros da Igreja particular, mediante um consenso alcançado à luz da fé, serena e humildemente.

Conforme revela o próprio significado do conceito, o “sínodo” é um caminho feito em comum, feito juntos, na mesma direção. Nada mais próprio da Igreja de Cristo, que é sempre orientada por essa intenção fundamental da unidade, da comunhão e da corresponsabilidade. O sínodo diocesano é um processo relativamente longo, com diversas etapas e com um grande envolvimento dos membros da Igreja particular, em diversos níveis de representação.

Que tal refletirmos juntos sobre a proposta da realização de um sínodo arquidiocesano? Ainda não se trata de uma decisão tomada; antes de uma decisão, desejo ouvir a Arquidiocese a esse respeito.

Publicado no jornal O SÃO PAULO - Edição 3091 - 2 a 8 de março de 2016